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Photo: OCP
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Cerveja no país do futebol: como está mudando o mercado cervejeiro brasileiro

O Brasil mantém a reputação de terceiro maior produtor de cerveja do mundo e, ao mesmo tempo, passa por uma revolução silenciosa. Entrou em cena uma liga cervejeira de alto nível, acompanhada pelo avanço acelerado das opções sem álcool e por uma nova onda de consumo fora de casa, que está transformando tanto as estratégias de marketing quanto a própria logística.

Cerca de 85% das cervejarias estão concentradas nos estados do Sudeste e do Sul: as metrópoles São Paulo e Rio de Janeiro concentram produção e consumo, enquanto o Sul (Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Paraná) apresenta a maior densidade de cervejarias artesanais. A produção nacional ultrapassa 15 bilhões de litros por ano. Em 2024, o número de cervejarias registradas chegou a quase duas mil e continua crescendo, embora esse crescimento já não seja impulsionado apenas pelas grandes marcas de lager. Ainda assim, o setor é altamente concentrado – poucos grandes players respondem pela maior parte do volume, enquanto milhares de pequenas marcas discretamente redefinem o perfil sensorial e agregam valor ao mercado.

A composição da produção ainda privilegia a lager: as versões claras e leves, como pils, representam mais de 90% do volume. Duas pequenas, mas importantes ondas estão mudando o jogo: a primeira é o puro malte – lagers 100% maltadas, que se tornaram a linguagem da “premiumização”. A segunda é a cerveja sem álcool, que rapidamente alcançou cerca de 5% da produção declarada e cresce no ritmo mais acelerado do mercado. Do segmento artesanal continuam surgindo IPAs, estilos ácidos e frutados, mas sua relevância é sobretudo de valor (maior margem, marca, experiência), não de volume.

Brasil como país exportador de cerveja

Em 2024, o Brasil exportou cerveja para 79 países, sendo que dois terços do volume tiveram como destino o Paraguai. A lógica é clara: proximidade regional, logística e faixa de preço tornam os países vizinhos um mercado natural. Já as importações têm caráter premium – vêm de apenas 21 países, com predominância da Alemanha e preço médio por litro significativamente superior ao da exportação brasileira. O resultado é um superávit comercial recorde no setor. Para os exportadores tchecos, abre-se um mercado cada vez mais segmentado e interessado em sabores específicos: há espaço, mas exige diferenciação clara (autenticidade, qualidade, storytelling) e um parceiro local estratégico.

Atualmente, estão disponíveis no Brasil marcas como Pilsner Urquell e Czechvar/Budweiser Budvar – via e-commerce, lojas especializadas e alguns bares. Funcionam como “bandeiras” da tradição europeia de lagers: posicionam-se em faixa de preço superior, mas sustentam-se em uma narrativa forte de origem.

O mercado é moldado por três grandes grupos: Ambev (AB InBev) – infraestrutura massiva e portfólio que vai do Skol à Stella Artois; Heineken Brasil – foco no segmento premium (Heineken, Amstel) e investimentos em capacidade;​ Grupo Petrópolis – marcas como Itaipava, Petra e Crystal, com forte presença regional. Atrás deles, um craft dinâmico: centenas de marcas, rótulos colaborativos com insumos locais e edições limitadas para consumo on-trade.

Dependência e oportunidade

O setor cervejeiro brasileiro ainda importa cerca de 99,6% do lúpulo. Ao mesmo tempo, cresce rapidamente a produção nacional – em 2024 já ultrapassou 180 hectares e mais de 270 toneladas de colheita – e mais de 90 cervejarias testam variedades locais (de Cascade a tipos “saaz”). Para a República Tcheca, isso representa uma dupla oportunidade: exportação de insumos e tecnologia premium, além de transferência de know-how para o desenvolvimento da lupulicultura brasileira (colaborações, edições “Brazil-grown hops”).

No radar da diplomacia econômica

Em junho de 2026 ocorrerá a Brasil Brau, uma das mais importantes feiras cervejeiras da América Latina, voltada para tecnologia, tendências e inovação no setor, incluindo o Congresso Brasileiro de Ciência e Tecnologia Cervejeira. O evento bienal em São Paulo promete não apenas demonstrações tecnológicas e degustações, mas também networking entre profissionais do setor. A Embaixada da República Tcheca em Brasília, em estreita cooperação com o Ministério da Agricultura, prepara a participação oficial tcheca com um estande para apresentação de empresas do setor (em caso de interesse, contate a embaixada).

Autores: Filip Vavřínek, Martin Lošťák